Marcas criadas na periferia de SP fazem sucesso e faturam alto.


Por Felipe Souza, de São Paulo.
Edição, Giovanni Bello.

Subir a ladeira da avenida Sabin parece fácil para as dezenas de jovens que se aglomeram na loja de 30 m2 da Vila Fundão, no Capão Redondo (zona sul paulistana).
A maioria busca uma camisa polo laranja, branca e preta. A intenção é se vestir como o cantor Mano Brown no encerramento do VMB (Video Music Brasil) 2012, quando o grupo Racionais MC's ganhou o prêmio de melhor clipe.
Artistas locais são os principais responsáveis por alavancar as vendas das grifes nascidas longe do tradicional eixo cultural paulistano.
A Vila Fundão foi criada em 2011 numa roda de amigos, mas só virou um sucesso depois de aparecer no corpo do maior ícone do rap nacional.
"O [Mano] Brown tinha pedido para eu fazer uma camisa para ele usar no VMB. Fiz na correria e só consegui entregar horas antes do show", diz um dos sócios da grife, Rodrigo Fonseca Pereira, 36.
No dia seguinte, conta, a loja recebeu ligações de pessoas de todo o país em busca da peça, mas ele não tinha.
Os Racionais ainda vestem Vila Fundão na maior parte dos shows. Mesmo com o aumento das vendas e o sucesso, porém, a grife enfrenta resistência e preconceito.
A sócia de Rodrigo, Flávia Diniz Dourado, 32, diz que alguns clientes têm medo de ir ao Capão. "Eles ligam perguntando: 'Posso ir aí sem roubarem meu carro? Eu não vou ser sequestrado?'", conta.
Também no Capão, a grife 1Dasul, criada pelo escritor Ferréz, 39, é outro exemplo de sucesso. Além dos bonés e camisetas, a loja vende livros e CDs de artistas locais.
"A ideia é que ela seja um movimento cultural, que agrega o grafiteiro, o pichador e o desenhista", afirma Ferréz.
O promotor de vendas Gabriel Oliveira da Silva, 20, diz comprar roupas ali há sete anos, pois elas refletem a realidade da periferia. "Quando você usa uma roupa do Capão, todo mundo sabe de onde você veio e que tem disciplina."
Em dezembro de 2014, a loja vendeu R$ 95 mil em produtos. Parte do dinheiro é investido em projetos sociais.
A Cúpula Negredo, criada no mesmo bairro em 2008 para fazer uniformes de times da região, hoje também cria as próprias roupas.
"O intuito é sermos representados, porque a gente sempre usa muita roupa estrangeira que a gente nem sabe o que significa e de onde veio", disse o sócio da marca Antônio Lopes dos Santos, 36.

Ostentação.
A 30 km dali, o dono da grife Egosss, Jeferson Santos de Souza, 35, bebe champanhe com amigos e funcionários em plena terça à tarde. O encontro é no showroom da marca em um prédio de alto padrão no Jardim Anália Franco, bairro nobre da zona leste.
A marca surgiu em Guaianases, no extremo leste, mas as vendas dispararam após ser "abraçada" por funkeiros e aparecer no clipe "Dom Dom Dom", do MC Pedrinho, conhecido por cantar músicas sobre sexo aos 11 anos.
"Muitos artistas e jogadores de futebol, como o Luís Fabiano e a cantora Anitta, também usam", diz o dono.
MC KS, 19, afirma que usa a marca porque ela tem estilo ousado. "Ela chama a atenção e surgiu de baixo, como um MC, depois estourou."
A Egosss fechou as portas da loja na periferia em dezembro, quando passou a se dedicar apenas à revenda.
Souza diz, porém, que a grife só faz parcerias com lojas de luxo. "As que vendem Lacoste ou Tommy [Hilfiger], por exemplo, estão propícias a vender a Egosss. Há revendas até em Nova York."
A camiseta mais simples não sai por menos de R$ 89. Apenas em dezembro, a marca vendeu cerca de R$ 450 mil em produtos.